28 novembro 2007

Busca

Ela o deixou – ou melhor – o empurrou de um penhasco. Na sua queda, bebidas e paranóia. Buscava-a em outras. Qualquer traço. Unhas, bolinha brilhante no nariz ou aquele dente lindamente torto. Passou a freqüentar a boate.

A primeira tinha o mesmo cabelo. Era bem mais feia e bem mais alta, mas o cabelo era o mesmo. Não transava igual a ela. Era um vazio.

A segunda tinha a mesma boca. Era bem mais feia e bem mais falante, mas a boca era a mesma. Não beijava igual a ela. Era um vazio.

A terceira não parecia em nada, mas aquele cheiro chamou sua atenção. Era bem mais feia, mas o perfume era o mesmo. Era só o perfume – a pele não cheirava igual à dela. Era um vazio.

Dia seguinte se arrependeu, mas o encontrou bêbado na boate com alguém que tinha seu cabelo. Deve ter sido por isso que no outro dia o cortou bem curtinho. Ficou feio. Deve ter sido por isso que voltou a beber e topou sair com o boyzinho que não tinha os olhos dele, mas de longe, ali no escuro da boate, dava a ilusão. Era mais feio e não a olhava como ele. Era um vazio.

Quando voltou a fumar, topou com aquele que tinha o quadril dele. Até dançava como ele, mas era mais feio e o resto não fazia como ele. Era um vazio.

Emagreceu e voltou a cheirar. Já topava com qualquer um. Aquele tinha os braços dele. Era mais feio e não a segurava como ele. Era um vazio. Agora ela já não usava o mesmo perfume quando ia à boate.

A quarta já não tinha mais nada dela. Nem cabelo, nem boca nem perfume. Era bem mais feia e bebia, fumava e se drogava sem parar, mas transava, beijava, e de uma forma estranha, cheirava como ela. Não era vazio, mas ele continuou procurando. Ela, de tão louca, já não sabia de mais nada e o penhasco agora era também dela.

Tião, parte I de III

As minhas mãos ainda estavam sujas de sangue quando eu dirigia o carro paroquial.

Grosseiro... Antes que eu comece, permitam que eu me apresente. Dizer meu nome não faz diferença, vocês não me conhecem. Sou Tião. Sebastião. Mas o que interessa é que as coisas pra mim são diferentes. Para todo mundo, ir jantar, depois trepar e depois fumar um cigarro é o programa padrão. Infelizmente não para mim. Vivia melhor quando morava na rua. Era mais feliz. Era livre. As pessoas fazem caridade sem saber o que estão fazendo. Não queria ter saído de lá. Maldito dia em que aquele padre me levou para a casa paroquial.

Tião, prazer.

Isqueiro e cigarro. Fogo no fumo. Pé na mesa. Costas na cadeira.

Onde eu estava? Ah... Mãos sujas e carro paroquial. Estava ali na avenida da praia, passeando devagar para relaxar, aliás, não precisava relaxar. Para relaxar as pessoas trepam e depois fumam. Para que serve o cigarro? Para relaxar é que não é. Ninguém termina o sexo tenso. O meu cigarro era passear assim, dirigindo o carro, e o meu sexo vocês vão saber se tiverem paciência.

Ironicamente eu fumava enquanto dirigia. Mais por costume que por necessidade. Lembrava de uma mulher que limpava a casa paroquial. Aquele maldito a comia sempre. Nem se preocupava com a criança que assistia a tudo. Ela sempre usava um batom vagabundo que ficava marcando o cigarro que fumava. Era assim que meu cigarro estava. Mas não era de batom a mancha vermelha no filtro.


- Oi moço, vamo se divertir?

Mandei entrar. Preciso de mais cigarros que o cigarro e o carro para andar.

- Moço, pelamordedeus, você tá cheio de sangue...

Ela estava mesmo espantada. Demorei alguns segundos para responder. Gostei de como ficaram os olhinhos dela. Olhavam para a porta do carro, mas já estava andando. Aposto que pensou em abrir e sair. Deve ter vindo do interior, pensei. Deve ser nova na coisa. Sua pele ainda é fininha, é branquinha ainda. Bonitinha com esse ar de inocente.

- É que eu sou açougueiro. Respondi. Menti. Ela relaxou.

Tião, parte II de III

Maldito padre, pensei. Ele não saia da minha cabeça. Arrependimento não era. Talvez fosse um sentimento daqueles que se tem quando uma coisa termina rápido demais. Como uma ejaculação precoce. Mas no sexo se tem outra chance, com a morte não.

Lombada. Blump.

- Credo moço, o que você carrega ai nessa mala ein?

Você não ia querer saber, minha querida. São peças de corte.

Eu não estava mentindo.

- Deixa eu ver?

Calei.

- Nossa! Por

que você enrolou o coitado do bicho numa batina? Que bicho é esse? Parece um pedaço de porco.

Ela estava ainda no banco do carona, meio que de joelhos, inclinada em direção ao banco de trás para ver pela tampa aberta do porta-malas. Usava uma saia curta e uma calcinha vagabunda que revelava sua boceta quase que completamente. Meu pau latejou.

Menina sai daí. Estamos chegando.

Portão se abria. Carro parava. Era a casa paroquial.

Desce.

- E o porco?

Depois, agora eu quero você. Andávamos para os fundos da casa. Área da piscina.

- Ai, calma. Vamo dá um mergulho na piscina? Assim você aproveita e tira esse sangue aí.

Ela começou a tirar a roupa. Tirou blusa. Tirou sutiã. Peguei-a por trás. Mãos nos peitos. Peitos com sangue. Sangue das mãos. Acho que ela gostou, apesar de sentir suas pernas tremerem. Passeei minhas mãos pelo corpinho dela. Tinha espasmos, mas acho ela gostava. Barriga, pernas, bunda, calcinha, áspera, vagabunda. Tirei, toquei. Sim, ela gostava. Só de saia, nada mais. Puxa o cabelo por trás. Era quente, molhada, como um recheio de bolo assim que sai do forno. Ela quase gemia. Queria que ela gemesse, por isso fazia mais forte. Mão no pescoço, mão nos cabelos. Força no pescoço. Engasgo. Quis parar, eu não. Soltei o pescoço, ela virou pra mim com o rosto vermelho. Sorriu. Gemeu, começou a rebolar. Ela gostava daquilo. Ela sabia que não era porco. Ela sabia que era casa paroquial. Ela juntava as peças. Ela gostava.

Tião, parte Final

- O que você andou fazendo, hein seu safado? Me conta, vai. Você matou o padre, não foi?

Rebolava. Falava. Eu calava.

- Nunca tive um cliente assim... O que ele tinha? Dinheiro? O que ele fez pra você, seu filho da puta?

Rebolava como se fosse quebrar a coluna. Fazia barulho de pele com pele. Tum, tum, tum - estalos como de marreta batendo na carne. Ela falava. Falava demais, falava besteira. Falava besteira demais. Me dava nos nervos. Mas era gostosa. Era pequenininha, por isso apertava. Ela gostava, por isso deslizava.

- Responde. Tum, tum, tum, responde cachorro, tum, tum, tum.

Duas mãos no pescoço.

- Ai.

Força nas mãos. Cara vermelha, mas ainda rebolava. Mais força nas mãos. O ritmo diminuía porque ela não conseguia respirar direito, as veias dos olhos saltavam. Senti que ela gozou nessa ora. Soltei um pouco as mãos. Ela tomou fôlego e eu voltei apertar. Mais forte que antes. Ela não se mexia, eu sim. Eu apertava mais forte e fazia mais rápido. Gozei. Soltei. Ela caiu. Estava morta. Ela falava demais. Falava besteira demais. Meu sexo é esse. Não o sexo em si. Você entende.

Peguei a enxada e fatiei. Era Macia a carne, não deu trabalho. Coloquei no saco e joguei no lixo. O mesmo com o padre. Era Inácio o nome dele. Ele comia a mulher que limpava a casa. Dorotéia. Acho que não era esse o nome dela. Acho que ela também era puta e depois que ficou velha teve que virar faxineira. Ele a comia na minha frente. Eu tinha 8 anos. Não era má pessoa entende?

Outro cigarro

Fazia caridade,

tragada forte

Celebrava missa, rezava direitinho. Mas me dava nos nervos também. Tive que matar. Ou ele ou meus nervos. Meus nervos, então.

Estava cansado, ensangüentado, sem calça. Entrei. Nada na geladeira. Padre filho da puta. E hoje Dorotéia não vem. Sorte dela. Tinha fome. Larica do sexo. Laricas dos sexos – há. Tenho senso de humor.

Só tem hóstia. E vinho. Corpo e sangue – irônico.

Garrafa de vinho. Saco de hóstias. Pés no centro da sala. Do gargalo para boca. Das mãos de sangue para a boca. Televisão. Cartoon Netwoork.

Polícia porra!

Blam na porta. Coronha na cabeça, sangue na cabeça, mão na cabeça.

- Deita!

Devia ter ao menos tomado banho. Devia ter escondido o lixo. Estava cansado. Cansado de me preocupar. Só queria o cigarro depois do sexo. Hóstia e vinho.

Algemas. Mãos atadas nas costas. Me jogam na piscina. Interessante como sangue parece pó dentro d’água. Bolhas de pó, eu solto. Eu brinco dentro d’água. Puxam meu cabelo e me tiram de lá. Vou para viatura, nu ainda.


Delegacia. Jornalistas.

- Finalmente é preso o Serial Killer, Sebastião Moreira, de 35 anos...

Ouvi de longe. São trinta anos, pensei.

- ... Deve receber acompanhamento psiquiátrico...

Deve ser a senhora então. Acompanhamento psiquiátrico... A senhora não é de se jogar fora. Parece inteligente. Psiquiatra. Não tem medo de mim. É porque sou calmo. Mas a senhora devia ter. Sei lá, de repente eu mato a senhora. Eu não confiaria nessa pistola que a senhora carrega. Eu me deixaria algemado e com mais um guarda na porta, em vez dessa câmera. É mais seguro, afinal eu sou um Serial Killer. A senhora está me dando nos nervos, assim calada. A senhora atira bem? A outra falava demais e me deu nos nervos, a senhora fala de menos está começando a me dar nos nervos. Gostei do seu decote. A senhora me dá nos nervos.

Ou você ou meus nervos.

Meus nervos, então.