10 dezembro 2008

Quarta-Feira

Se não foi amor aquele suspiro, aquele silêncio todo, não o conheço então. O meu tem a força de 12 exércitos. Pior, a força da resistência à 12 exércitos.


Na quinta marcha o vento na cara é mais forte, é só dizer ao piloto que quer com emoção.

Só não se negocia o amor. O resto sim.




24 novembro 2008

Feliz Aniversário

Era aniversário de Júlia. Que mérito eu tenho em sobreviver à passagem do tempo? Em envelhecer? Pensou entre um “tudo de bom pra você” ôco e um “parabéns” vazio, todos em telas. De celular, de computador. Lembrou das palavras da sua mãe no dia que decidiu sair de casa. Individualista. Você não liga para ninguém. Um dia ninguém vai ligar para você. A mudança de sentido do verbo ligar a fez achar proféticas as palavras de Dona Regina. Mas nem ela me ligou? Ela liga todo ano. Será que meu celular está ligado? Checou 6 vezes em duas horas. Depois de mais uns e outros “parbéns” e “felicidades”, e algumas mensagens padrão de lojas de roupa, decidiu ignorar o celular.

Decidiu sair só. Estava puta. É engraçado dizer que estava puta. Eram 2 da tarde. Vestiu o biquini e foi à praia sozinha, afinal se bastava. Deitou na canga com óculos escuros apontado para o sol. Aquele era o biquini pequeno. O resquício de uma marquinha maior denunciava que não costumava usar aquele. Olhos fechados e fones no ouvido. Nada a perturbava até sentir o chão tremer. Quando levantou os óculos percebeu a bola de futebol ainda rolando perto das suas pernas e meninos de pernas branca que improvisavam uma pelada com traves de coco, bem perto de onde ela igualava as marcas de bronzeado.


Tanto lugar nessa litoral brasileiro para esses meninos. Também não saio daqui, pensou enquanto ecoava, de novo as palavras de sua mãe. Daqui eu não saio. Cheguei primeiro. Aumentou o volume. Uma dividida de bola lançou 58 grãos de areia no seu dedão esquerdo do pé.

Quase quebra as pernas do óculos quando os tirou bruscamente do rosto de menina burguesa de nariz empinado. O recado da sua expressão foi passado aos jogadores. Já não estava mais deitada. Flexionou um pouco as pernas e apoiou os cotovelos no canto da canga e observou de maneira desafiadora o jogo.


Jeferson era o gordinho do condomínio que não gostava de futebol, mas participava pela aceitação social. Ficava ali perto gol para constar. 17 anos. Espinhas no rosto. O ângulo dos joelhos de Júlia comprimiam sua vulva no pequeno biquini. A posição aliada à depilação minuciosa que fizera para o caso de se dar bem no dia do aniversário. Percebeu que Jeferson observava exatamente esse detalhe por causa do gol que não pode ser evitado pela falta de atenção do adolescente. Sentiu inicialmente repulsa, mas o seu ódio pelo mundo e a coincidência do seu aniversário ter caído exatamente 14 dias depois da sua última menstruação a fizeram preferir provocar o gordinho. Afastou um pouco mais uma perna da outra e ajeitou o top do biquini. Jeferson tentava disfarçar falando com os colegas de time enquanto a observava. Júlia decidiu passar protetor solar na parte interna da coxa. Virou-se de bruços, quase de quatro, para pegar algo na bolsa. O biquini não era fio dental, mas nessa hora ficou. Quando retornou, viu o menino de tetas grandes dar uma apertadinha no pau. Pronto, era hora de ir. Ela acenou de longe. Mais um gol aconteceu.

Fim da tarde, mais mensagens em tela. Sua mãe liga, afinal. Mas só ela. A experiência da tarde a tinha provado que se bastava. Sair sozinha de novo à noite não seria um problema. Onze horas no bar, muitos conhecidos mas nenhum parabéns. Antes da banda começar rolava um som. Uma mulher com biotipo e estereótipo de funkeira dançava exageradamente com um short branco curto. Lembrou da frase de Marco, seu amigo: “calça branca dá tesão até no varal”. Deu em Matheus: menino de cabelo partido de lado e ombros estreitos que a secava de longe, mas descaradamente. Júlia foi ao bar. Caipirinha. Uma, duas, três. Meia noite e meia passa perto da escada que a tal mulher que dançava subia. O tal do Matheus ainda, de baixo, como que gravando a imagem para a punheta que bateria em casa, olhando. Lembrou-se do gordinho da praia. Ébria, chegou para Matheus e perguntou ao seu pé-do-ouvido


  • E eu? Sou gostosa também?

O menino, ficou o rosto vermelho. Titubeou e fez que sim. Ela saiu de perto, só queria provocar.

Andou pelo bar e por meia hora. Por onde ia, Matheus a espreitava sem coragem de aborda-la. Ela sorriu com o canto da boca e foi até ele.

  • Qual é o seu nome?
  • Matheus e o seu?
  • Roberta. Você é virgem, Matheus?
  • Não
  • Claro que é.
  • Você não vai me comer hoje, mas eu tenho uma proposta:

Uma lágrima estava prestes a cair pelos olhos do menino.

  • Eu te mostro minha boceta, mas você não vai poder me tocar e vai ter que fazer uma coisinha pra mim. Topa?
  • Sim.
  • Seu pau está duro?

Não respondeu. Ela chegou perto e tocou a calça. Estava.

  • O que eu tenho que fazer?.
  • Você topa ou não?
  • Topo

Foram ao banheiro masculino, numa cabine. Ele estava parado.

  • Baixa as calças. Ela mandou.

Cueca Zorba.

  • Me dá o seu dedo, Júlia falou. Ele deu o indicador. Ela pegou a mão dele, sacou o dedo médio do punho fechado de timidez e colocou na boca. lambuzou-o com a boca. Ele estava com o pau duro e cabeça vermelha, mas tinha vergonha de se masturbar.
  • Você não vai me mostrar? O menino tinha a voz trêmula.
  • Calma, você ainda não fez o que eu pedi. Enfia o dedo no cu.

Matheus hesitou.

  • To falando sério. Quer ver ou não quer?

Ele colocou a mão atrás de si.

  • Não vale roubar. Deixa eu ver. Ela colocou ele de costas com um pé no vaso para vê-lo se penetrando. O menino se tremia de alguma coisa: ódio, medo ou vergonha.
  • Enfia tudo

Feito. Júlia colocou-se do lado dele e levantou o vestido. E baixou a calcinha até o joelho também. Matheus estava imóvel com o dedo no cu.

  • Você pode bater uma se quiser, só não pode me tocar.

Ele não fez nada, só olhava com o ânus entupido e o cacete ereto.

- Ela começou a brincar com sua boceta. Exibia-se pra ele. A situacão evoluiu e a excitou. Não pela visão do menino, mas pela sensação de poder. A sua masturbação inicialmente simulada, passou a ficar real. Ecoou pela terceira vez, o discurso da sua mãe. Gemia alto para provocá-lo, mas nem sentia tanto prazer assim. Ele timidamente tocou seu pau. Júlia virou pra ver se o dedo do menino estava onde ela tinha mandado. Estava. Ela abria sua vulva para Matheus ver. O fez por 30 segundos até o coitado explodir num orgasmo. Uma parte espirrou involuntariamente na palma da mão de Júlia, que prontamente a devolveu em formato de tapa na cara de Matheus. O rosto do menino ficou vermelho da pancada e molhado do seu próprio esperma. Ela enxugou o que faltava na camisa dele e foi embora. Ele sentou no vaso e chorou. Ela foi pra casa vingada.

17 novembro 2008

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14 novembro 2008

Bobo como eu

Queria ter um fusca azul
Uma prancha de surf
Fazer uma viagem para o sul.


Queria ter uma cama de casal
Um quarto só pra mim
Achar tudo normal


Queria ter férias em fevereiro
Experimentar carnaval
Fazer coisas que não me dão dinheiro


Queria ser mais belo
Não precisar me esforçar tanto
Pra criar um elo


Queria ser mais inteligente
Me apegar mais aos bichos
Menos à gente


Queria sair daqui
Morar fora
Para quando a coisa apertar ter pra onde ir


Queria ter alguém
Que quisesse estar comigo
pelos mesmos motivos que eu
Que me ame como amigo
E não queira ter mais ninguém

11 novembro 2008

Do tamanho de um punho cerrado

O coração é um músculo, pouco inteligente por sinal, que bombeia sangue. Não o faz de maneira racional. Não controla a irrigação, nem a intensidade dos batimentos, nem tem a iniciativa de se exercitar para evitar doenças do seu hospedeiro. Quem faz tudo isso é o cérebro. O coração, se você cortar alguém, serrar as costelas e colocá-lo para fora, de tão burro ainda continua batendo. Se jogá-lo no chão, continua batendo em meio à poça de sangue e gordura, num ritmo quase alegre. Se bem que, se o coração tem suas deficiências e é controlado pelo cérebro, este deve ser um tanto burro também - ou incompetente para gerir todos os órgãos do corpo de maneira 100% satisfatória. Tem que cuidar dos olhos, trompas de eustáquio, duodeno, rins, fígado, faringe, perna. Tudo bem, é órgão pra cacete e ele só tenta ser justo dando a mesma atenção para cada um deles, mas o coração é especial. É burro e importante, como um filho retardado a quem é dada toda a assistência. O cérebro não tem tato para isso. É um burocrático que não trabalha com as exceções.




10 novembro 2008

Última Instância

Se você não fizer o que eu quero eu te bato.

Te dou o que você quer, se você dormir comigo.

Amor de verdade

Te amo por toda eternidade, a menos que eu goze antes.

Motim

Meu amor me preenche totalmente, mas meu corpo não é sucficiente para comportá-lo todo. A parte que fica fora tenta desesperadoramente entrar, e cada forçada que dá me sangra um pouco.

29 julho 2008

Bertram

Taverneira do inferno
O vinho acabou-se
Enche a taça até a borda
Pé na cova, o gosto doce.

Enchei os copos, meus amigos
Pois o que direi é negro
Tal um cego perdido
Qual marcha fúnebre em allegro

Depois da sangrenta peleja
Acordei-me naufragado
Com febre na cabeça
Quisera ter-me afogado

Comigo eram dois
Minha amada e seu marido
Ela bela, olhos fundos
Definhando em seu vestido.

A única sorte
Para os três moribundos
Já perto da morte
C'olhos n'outro mundo.

Era o jogo mais maldito
Em que a morte era sorte
E o azar era a morte
Na miudez do palito

Olá Taverneira
Bastarda de Satã
Não vês que tenho sede?
Já é quase de manhã.

Lua Minguante.

Todo aquele sofrimento,
As lágrimas frias ao relento,
O tremor sutil dos lábios,
Àquela noite, o menor de meus pecados.

Observava à espreita,
O rosto pálido à janela,
Chorava de tal sorte,
Que a lua minguant'era ela.

Se pudesse atraí-la
Com o poder do pensamento
Debruçada a teria
Em seu leito de tormento.

De certo a possuiria
Com todo aquele sofrimento.
Seu corpo nu e branco
E lágrimas frias ao relento.

Antes

Noites onanistas em meu leito,
Solitário e quente eu me deito
Com a cabeça em seu vênus, seu peito.
Consumo só, o que quisera ter feito.

19 junho 2008

DNA

26 de dezembro de 2008 Pedro acordou mais tarde que os outros 364 dias. O Natal não era tão sagrado pra ele desde que seu pai morrera atropelado 5 anos antes, na noite da ceia, ao sair de casa para comprar mais refrigerante. Não deixou de ir às festas por causa disso, mas o motivo agora era outro.

Toda véspera era igual. Bebia até não se lembrar de nada e acordava sempre no dia 26, tarde e cansado. O pai era tudo que ele tinha. Não falava com o irmão desde que o pegou na cama com sua ex-mulher. Sua mãe perdeu quando ainda era criança. Dela não se lembrava muito, a não ser quando as dores no peito o levavam ao hospital. Doença cardíaca genética herdada de Dona Drica, vítima de um ataque cardíaco fulminante.

Abriu os olhos, mas ainda tinha sono e a mania de sempre olhar para o relógio de cabeceira toda vez que despertava, mesmo mesmo quando ia só se reacomodar na cama. 11:13. Tá cedo, pensou, deitou, fechou os olhos e tentou se lembrar do que tinha acontecido das 20:00 do dia 24 até aquele momento, mas não via nada além de flashes. Não sabia distinguir sonhos da realidade. Naquele natal tinha se superado, nunca bebeu tanto. Os flashes continuavam vindo. Lembrou de ter estado na casa de Davi, amigo de infância. Lembrou de uísque, gim, cerveja, cachaça, vodka, meio dormindo, meio acordado, relacionou com um alfabeto, tinha bebido todas as letras. Sorriu e parou porque doeu a cabeça, se arrependeu. Os flashes agora eram involuntários. Davi. Tudo começou com uísque: João Andante, relacionou de novo, e pensou: agora você não me pega, não vou rir, dirigindo-se a sua própria pessoa. Depois gim, depois carro, casa de quem? Não lembro. Tinha uma bebidinha. Percebeu sua boca inchada. Preocupado levantou e foi até o banheiro. Não era só a boca, o olho tava roxo. Não tinha bebido demais dessa vez, é que a dor de cabeça da ressaca se somou à da surra que tinha levado sem saber o porquê. De quem será que eu apanhei? Pior, porque eu levei tabefe no dia do Natal? Presente de merda, falou com careta de dor. Ah, a bebidinha. Nos flashes estava bebendo de uma garrafinha pequena revestida com um couro de animal. No terceiro gole caiu no chão junto com a garrafa. Soco no olho. Deitado, anestesiado pela bebida, sorriu para o agressor, e deu outro gole. O cara o levantou pelo colarinho e deu mais uns tapas, tomou a garrafa e ficou lá falando algo enquanto me levavam embora. Bebi a cachaça do pai de Isabela. Nem conhecia o velho. Sacanagem. Sorriu mesmo com dor, de frente para o espelho. Voltou pra cama. 18 chamadas não atendidas. Davi. Ligou:

- Acordei todo fodido aqui, o que foi que eu fiz?

- Você não lembra de nada?

- De porra nenhuma. Aliás, lembro de uns flashes só, mas eu não sei se foi sonho ou verdade. Acho que lembro de ter tomado uma cachaça, e apanhei por isso.

- Era do pai de Isabela

- Caralho! O loucão? Bate forte o cara.

- É, o loucão. Tu foi pegar a garrafa do cara... Só lembro dele falando num-sei-quê-do-egito, faraó fulano de tal, e você sangrando, estirando o dedo pra ele enquanto eu te carregava. Dois loucos na noite do Natal. Eu não ia bater no velho. Era o pai de Isa, né? E você tava na casa dele, e tomou a cana dele. Sei lá que loucura ele tinha com aquilo

- O pior que não tá doendo muito não. Vai doer mais depois, eu acho.

- Mais tarde passo aí.

- Vou voltar a dormir. Me acorde quando chegar.

Pedro deitou e logo cochilou. Não dormiu profundamente. Acordou. Virou e olhou o reloginho. 6:30 da manhã. Dormi isso tudo? Davi não veio. Pegou o celular. Tava desligado. Tentou ligar. Sem bateria. Foi carregar. Favor ajustar a hora e a data dizia no aparelho. Pegou o reloginho. Hora: 6:32. Data 29 de dezembro de 2008. Tá errado. Foi na cozinha ver no microondas. A hora confere. Microondas não tem data. Ligou o computador. 29 de dezembro de 2008. Puta que pariu! Dormi 3 dias direto? Que merda! Foi a cachaça do louco. Por isso que é louco, fica bebendo essas coisas. E essa porrada que eu levei, não melhorou nada.


Mensagem Offline.


David diz: Fui aí naquele dia e você não tava em casa. Celular não atendeu. Dê um sinal aí. Reveillon vamo pra Graçandu.


Ligou.


- Alô. Como assim eu não tava em casa? Eu dormi direto daquela hora e até agora.

- Eu também estava dormindo até agora. Até você me acordar. São 6:40 da manhã.


- Tô preocupado. Conte essa história direito. Como eu não tava em casa se eu fiquei dormindo?

- Você não tava, eu entrei, fui no seu quarto, a cama tava vazia. Você andou bebendo de novo?

-Não, porra! Eu tô falando! Eu dormi e acordei agora. 3 dias depois, e o pior que nem descansei. Ainda to meio com sono. Que porra tinha naquela bebida? Ainda bem que o velho me bateu e eu parei de tomar. Por isso que ele ficou louco, tem alguma coisa naquela merda.

- Me deixe dormir. Quando eu acordar eu te ligo. Falou.

- Tá. Vou no hospital ver minha cabeça. Por dentro e por fora.



Aguarde ali, senhor. A recepcionista que disse. 40 minutos depois Pedro foi atendido.

- Você sofreu uma agressão?

- Sim.

- Há quantas horas?

- 3 dias.


- 3 dias? Hum... você é diabético? A cicatrização tá bem ruim.


- Pois é, por isso que eu vim aqui. Nesse ritmo não vai cicatrizar nunca. Tem outro problema também. Eu dormi direto 3 dias. Acho que foi alguma coisa que eu bebi, mas achei bom vir ver.

- Bom, pra o machucado eu vou fazer uns curativos e passar medicação. Pra esse assunto do sono, eu vou te encaminhar a um psiquiatra. Aliás, se Dr. Lucas estiver disponível, você já pode ir agora. Vou dar uma ligada. Lucas, tá podendo atender um paciente agora? Ok. To mandando. O consultório dele é o último desse corredor. Tem o nome na porta.

  • - Brigado.



  • - Dr. Lucas?

    - Sim. O que há de novo?

    - Nada demais, aliás, demais só a bebida. Bebi muito nesse natal. Dormi 3 dias direto. Achei melhor vir ver o que era.

    Dr.Lucas tirou uma lanterninha do bolso do jaleco e apontou para olhos do seu paciente enquanto olhava por cima dos seus óculos.

    - Acompanhe meu dedo.

    Para um lado, para o outro, para cima, para baixo.

    - É, os reflexos estão Ok. Pode ser estafa. Você já ouviu falar em catalepsia?

    Pedro disse que não, mas sabia do que ele tava falando. Lembrou que enterraram o primo do amigo do seu colega achando que ele tava morto, mas na verdade tinha catalepsia. Quando abriram o caixão, o homem estava virado com a mão na boca. Pelo menos foi o que contaram a ele.


    - Doutor, obrigado mas eu tenho que ir. Ligo pra marcar os exames.

    Continuava com sono. Sentou na parada do ônibus e cochilou. Acordou embaixo de uma árvore. Que merda está acontecendo comigo? Vou voltar para o hospital. Vou me internar. Estou louco, pensou. Andou desorientado, não sabia onde estava. Parecia estar em outra cidade. Se eu perguntar em que cidade estou, vão me internar. Perguntar o nome da rua, não tem problema.


    - Amigo, por favor.

    Abordou um jovem, de terno e gravata. Olhou em volta e viu que todos os homens usavam terno, e as mulheres vestido. Sentiu-se nu de calça jeans. Percebeu que todos olhavam para ele.

    - Qual o nome dessa rua, por favor?


    • Essa é a Av. Hermes da Fonseca. Para onde o senhor deseja ir?

    • Hermes da Fonseca? Obrigado.

    Hermes da fonseca é a rua do Hospital. Andou para um lado e para outro. Não encontrou Hospital nenhum.

    -Moça, licença. Como eu faço para chegar no Hospital Gurgel?

    • Hospital Gurgel eu não conheço.

    • Não conhece? Hum... desculpa, eu estou meio desorientado, é que eu viajo muito. A gente está em Natal, né?

    Falou sem jeito.

    • Sim, Natal.

    Respondeu simpática. E aproveitando a simpatia replicou. E que dia é hoje mesmo?

    • 14.

    • De quê?

    -14 de maio de 1956.

    Falou a data completa, brincando. Pedro corria. O que esta acontecendo comigo? Seus olhos encheram de lágrimas. Achou um armazém. Achou um jornal. A republica. Pegou. 14 de maio de 1956.

    • Ou eu estou louco ou voltei no tempo.

    Era tudo tão diferente da sua cidade, mas os morros eram os mesmos, só a vegetação que mudava, saiu andando sem rumo. Começou a ver semelhanças. Caralho, voltei no tempo. Não, eu estou sonhando. Eu cochilei na parada. Eu lembro. Preciso acordar.

    Com os dedos polegares e indicadores forçava as pálpebras como se estivesse querendo abrir os olhos. Tentou uma, duas, três vezes. Na quarta fazia gritando. Todas as pessoas olhavam para ele, com uma roupa completamente diferente, no meio da rua abrindo os olhos e gritando. Dois homens de azul chegaram ao seu lado, à cavalo. Ele parou. Os homens desceram. Era a polícia. Foi preso.

    3 horas depois, na cela, duvidou que ainda estivesse dormindo. Por mais louca que fosse a idéia, tinha realmente voltado no tempo. Como faço isso? Tentou se concentrar, sem sucesso. Tentou mais vezes. Passou o resto do dia tentando. A noite, cansado, deitou-se. Foi tentar mais uma vez. Concentrou, fechou os olhos e adormeceu.

    Acordou com um dois feixes de luz e um som de buzina se aproximando. Era um carro, no susto se levantou. O carro freou em cima dele. Estava no meio da rua, mas isso não o impressionava. Pelo menos não mais que o fato de ter dormido na cadeia e acordado ali. O som do motorista o chingando parecia estar num volume mais baixo que o do seu pensamento. Foi andando até a calçada. Preciso achar uma cigarreira, uma banca. Ver o jornal, lá tem a data. Andou até um shopping. Jornal.


    Secretário da defesa americano diz que Brasil tem que assinar emancipação amazônica.


    Supla lidera as disputas pelo governo de SP.


    Sport de Recife bate Manchester no Japão e é campeão mundial.


    04 de abril de 2031.


    Dois mil e trinta e um. O número ecoou na sua cabeça.

    É quando eu durmo. Sempre acordo em outro lugar, quer dizer, outro tempo. Tempo e lugar são a mesma coisa ou algo do tipo, lembrou de Einstein. Preciso me manter acordado. Aliás, preciso dormir. Quer dizer, preciso ficar acordado, até saber o que fazer, preciso procurar alguém. Estou no futuro, já devem saber de alguma coisa. Caminhou pela rua. Reconhecia o cenário. O Futuro é mais parecido com o presente do que o passado. Mas que presente? Presente de merda aquele do natal, relacionou. Quando lembrou do natal, lembrou do pai. Se ele não tivesse morrido, eu não estaria bebendo naquele dia e nada disso teria acontecido. Idiota, eu posso viajar no tempo! Falou consigo mesmo. Só preciso de um pouco de sorte para acordar numa data que eu já exista e que seja antes do acidente do meu pai. Aí é só avisar a mim mesmo sobre o que vai acontecer, que eu não deixo meu pai sair pra comprar refrigerantes e nada disso que vai acontecer. Mas eu vou acreditar em mim? E se nada disso acontecer, um novo futuro vai existir. E se um novo futuro vai existir como eu poderia voltar ao passado e me contar isso? Eu não tenho nada a perder. Preciso é dormir. Farmácia. Calmante. Drogaria Deus Ama. Eles não vão me vender um calmante forte. Pet Shop. É só dizer que vou viajar e preciso sedar meu cachorro, não tem erro. Pet Shop Amigo Bicho. Amigo bicha, relacionou. Conseguiu o calmante e o aplicador. 1 ml por kilo do animal. Animal é a mãe. 75 ml pra dormir rapidinho. Hotel 5 estrelas. Não vou acordar lá mesmo. Suíte presidencial, por favor. Room service, por favor. Champanhe, por... não, esquece a champanhe. Nunca mais eu bebo.

    Preparou o kit de sedação. Tirou a seringa do plastico, colocou os 75 ml. Colocou a droga no bolso, respirou fundo e aplicou, tudo apagou. Acordou. 16 de julho de 1999. Uhu! Só preciso me achar. 99...99... o que eu fazia? Colégio. Merda, já é noite. Só amanhã. Não posso dormir. Pior que esse sedativo ainda me deixa zonzo. Amanhã 6 e meia, na porta da minha casa, eu me encontro. Melhor na parada do ônibus, ou na frente da escola? Que merda, estou inseguro para um encontro comigo mesmo! Estarei na parada de ônibus as 6 e meia. Espero que eu não tenha faltado aula nesse dia. Depois de hoje eu vou manter um diário. E vou anotar todos os resultados da mega sena também.

    De manhã cedo, ele estava lá, esperando a si próprio, ansioso. 6:37. Atrasado. Dorminhoco. Vamo ver se você vai gostar assim de dormir daqui a 9 anos. Lá vem.

    O jovem pedro chegou de farda e se posicionou na frente do seu eu, 9 anos mais velho. Em câmera lenta, o viajante do tempo direcionou sua mão para tocar-lhe o ombro, nervoso.


    • Pedro.

    • Oi, eu te conhe...

    Antes de terminar a frase, se reconheceu. Assustado, teve um ataque cardíaco e morreu. Pedro, por sua vez, cheio de remorso também teve um infarto fulminante, igual o sua mãe. Antes de cair morto do lado de si mesmo, esboçou um pensamento sobre dona Drica que durou apenas uma fração de segundos tão pequena que não conseguiu ter uma forma.









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    24 março 2008

    Tive um sonho

    As pessoas já tinham ido dormir, mas ele preferiu ficar um pouco mais na varanda da casa vendo a lua que há muito não ficava tão grande e cheia. Pensou que devia ir mais àquela praia. Olhando mar e o céu, notou que uma estrela se aproximava muito rapidamente. Por um momento teve medo, mas acalmou-se. Era um avião. Continuou sentado. Outro avião se aproximava, dessa vez, muito rápido. Ele não está a apenas 700km/h, pensou. Aspas no apenas vieram à sua cabeça durante a frase. O terceiro surgiu. Esse vinha mais rápido e mais baixo. O medo voltou. O quarto vinha mais rápido, mais baixo e mais ameaçador que os anteriores. Com as mão à cabeça, viu a nave disparar duas vezes. Tumtum. Dois riscos de fogo atingiram a casa. Ele correu para avisar as pessoas debaixo daquele fogo sem razão. Escondido no quintal da casa, observava um após outro atirando e sobrevoando. João Carlos, curioso, ficou no quarto olhando o ataque. Ele o chamou, gritou, advertiu, mas João queria ver os tiros. Mais um tumtum, bem no quarto do amigo. Não morreu nem se queimou, ficou apenas desidratado, fraco. Cada nave, um vôo, a cada vôo dois tiros iam destruindo a casa. Ele só esperava. Aos poucos as paredes iam cedendo, os tetos caindo, o abrigo ruindo, ele se expondo e o medo aumentando.

    Sentia uma nudez de morte quando viu a casa em ruínas e as tais naves que já não estavam mais tão velozes, sobrevoando em círculos o céu da sua cabeça. Entregou-se ao pavor. Um deles pousou. Ele foi falar. Perguntou chorando o porquê daquilo tudo. O piloto não era deste planeta, apesar da aparência familiar. Tinha cabelos lisos longos loiros, olhos verdes e rosto redondo. Não tinha barba nem nada que indicasse que era macho, a não ser a voz. Ele tinha certeza que não era terráqueo, talvez por causa das naves. O piloto respondeu que eles estavam aqui para destruir a Terra, com um sorriso no rosto como de quem anuncia que vai construir uma casa nova. Ele estava desesperado e perguntava por que. Respondiam-lhe que os malditos terráqueos tinham feito o mesmo com o planeta deles, sem razão. Estranhamente não perdia o ar feliz, estranho e andrógeno do rosto.

    Mas não sabíamos nem que havia vida inteligente fora daqui, como destruímos seu planeta? Antes de terminar de falar, ele foi iluminado com a luz de quem está condenado e entendeu que os malditos terráqueos destruíram aquele planeta não no presente, mas no futuro. Na verdade , ainda íamos destruir. Essa coisa de viagem espacial mexe com tempo. Relatividade de Einstein. Deve ter sido isso. Chegaram num tempo aqui que ainda era passado para nós. Podiam se vingar antes de termos cometido o ato.

    Ele não questionou. Se vamos destruir o planeta deles, nada mais justo. Nem estamos mostrando muito apego ao nosso mesmo, pensou enquanto andava de cabeça baixa para longe do Et. Achava que ia morrer. Já não ligava, mas mesmo conformado, sentiu seu coração bater ainda mais forte quando ouviu o barulho do clique da arma que o piloto preparava para matá-lo. Não virou as costas. Fechou os olhos com uma força que espremeu as lágrimas que ainda não tinham caído. Pensou na sua namorada, mãe, amigos... Foi atingido por um raio lazer que o transformou em cinzas.

    07 fevereiro 2008

    Descoberta


    O aspecto curioso de Nuno Gonçalo - português que perambulava pelas vielas lustanas por volta do ano 1200 se referia muito mais a sua característica contestatória do que à capacidade de despertar o interesse alheio sobre sua pessoa. Apesar da sua necessidade vital de ir de encontro ao senso comum da época, contestando com um furor que lhe custou a metade de sua orelha direita, alguns dentes e um problema na perna, paradigmas como: mais de um banho por mês faz mal - pessoas nascem através do sexo - existem seres tão pequenos que não podem ser vistos, a linha do horizonte é um abismo onde as embarcações caem e são devoradas por terríveis monstros marinhos, nunca conseguia provar seu ponto de vista, o que o fazia alvo de chacotas constantes no seu vilarejo.

    Durante meses decidiu aplacar o seu instinto contrariador e se concentrar em provar alguma de suas teorias. Sua certeza de que não havia nem abismo nem monstros marinhos era tal, que começou a preparar sua viagem para além do horizonte. O velho barco à vela de seu avô ainda estava navegável, e mesmo se tratando da única ferramenta de trabalho de sua família, que vivia da pesca, o elegeu como vetor do seu maior ataque à opinião geral.
    Pegou uma muda de roupas, alguns quilos de bacalhau e outros de laranja, e partiu oculto pela noite portuguesa.

    As primeiras semanas no mar foram de dúvidas. Com receio, se perguntava se já teria chegado ao horizonte. Com medo, vacilava, e pela sua cabeça passava a idéia de que poderia estar errado, e os tais monstros existirem, de fato.

    As semanas se tornaram meses e o suprimento de comida estava acabando. Tinha apenas mais alguns dias, mas antes de entrar em desespero avistou terra. Pensou ser a ilha da Madeira ou Açores. Resolveu aportar para procurar comida e iniciar seu retorno a Portugal. O que ele não sabia era que não estava em nenhuma ilha portuguesa, mas numa terra nova, em que nenhum europeu jamais havia pisado.
    Logo que desembarcou, foi recebido por um grupo de 5 homens nus, armados de arco e flechas, que o ameaçavam. Tentou se comunicar por mais ou menos 10 minutos, até os tais homens nus começarem a disparar. A primeira seta atravessou a perna do pobre Nuno, que ao saber que ia morrer só pensava que estava mesmo certo: não havia monstros nem abismos, o que, por indução, o levou a constatar que também não fazia mal tomar mais de um banho por mês, que as pessoas não nascem através do sexo e não existem seres pequenos a ponto de não serem vistos. Esboçou um sorriso que se transformou em careta com a penetração da segunda flecha no seu estômago, seguida pela terceira no seu pescoço e a quarta no seu olho direito. Morreu ali.

    Em Portugal, com o desaparecimento do jovem, ficou confirmado então que realmente existem o abismo e os monstros marinhos, bem como que as pessoas nascem através do sexo, e que existem seres tão pequenos que não podem ser vistos.