07 fevereiro 2008

Descoberta


O aspecto curioso de Nuno Gonçalo - português que perambulava pelas vielas lustanas por volta do ano 1200 se referia muito mais a sua característica contestatória do que à capacidade de despertar o interesse alheio sobre sua pessoa. Apesar da sua necessidade vital de ir de encontro ao senso comum da época, contestando com um furor que lhe custou a metade de sua orelha direita, alguns dentes e um problema na perna, paradigmas como: mais de um banho por mês faz mal - pessoas nascem através do sexo - existem seres tão pequenos que não podem ser vistos, a linha do horizonte é um abismo onde as embarcações caem e são devoradas por terríveis monstros marinhos, nunca conseguia provar seu ponto de vista, o que o fazia alvo de chacotas constantes no seu vilarejo.

Durante meses decidiu aplacar o seu instinto contrariador e se concentrar em provar alguma de suas teorias. Sua certeza de que não havia nem abismo nem monstros marinhos era tal, que começou a preparar sua viagem para além do horizonte. O velho barco à vela de seu avô ainda estava navegável, e mesmo se tratando da única ferramenta de trabalho de sua família, que vivia da pesca, o elegeu como vetor do seu maior ataque à opinião geral.
Pegou uma muda de roupas, alguns quilos de bacalhau e outros de laranja, e partiu oculto pela noite portuguesa.

As primeiras semanas no mar foram de dúvidas. Com receio, se perguntava se já teria chegado ao horizonte. Com medo, vacilava, e pela sua cabeça passava a idéia de que poderia estar errado, e os tais monstros existirem, de fato.

As semanas se tornaram meses e o suprimento de comida estava acabando. Tinha apenas mais alguns dias, mas antes de entrar em desespero avistou terra. Pensou ser a ilha da Madeira ou Açores. Resolveu aportar para procurar comida e iniciar seu retorno a Portugal. O que ele não sabia era que não estava em nenhuma ilha portuguesa, mas numa terra nova, em que nenhum europeu jamais havia pisado.
Logo que desembarcou, foi recebido por um grupo de 5 homens nus, armados de arco e flechas, que o ameaçavam. Tentou se comunicar por mais ou menos 10 minutos, até os tais homens nus começarem a disparar. A primeira seta atravessou a perna do pobre Nuno, que ao saber que ia morrer só pensava que estava mesmo certo: não havia monstros nem abismos, o que, por indução, o levou a constatar que também não fazia mal tomar mais de um banho por mês, que as pessoas não nascem através do sexo e não existem seres pequenos a ponto de não serem vistos. Esboçou um sorriso que se transformou em careta com a penetração da segunda flecha no seu estômago, seguida pela terceira no seu pescoço e a quarta no seu olho direito. Morreu ali.

Em Portugal, com o desaparecimento do jovem, ficou confirmado então que realmente existem o abismo e os monstros marinhos, bem como que as pessoas nascem através do sexo, e que existem seres tão pequenos que não podem ser vistos.