24 março 2008

Tive um sonho

As pessoas já tinham ido dormir, mas ele preferiu ficar um pouco mais na varanda da casa vendo a lua que há muito não ficava tão grande e cheia. Pensou que devia ir mais àquela praia. Olhando mar e o céu, notou que uma estrela se aproximava muito rapidamente. Por um momento teve medo, mas acalmou-se. Era um avião. Continuou sentado. Outro avião se aproximava, dessa vez, muito rápido. Ele não está a apenas 700km/h, pensou. Aspas no apenas vieram à sua cabeça durante a frase. O terceiro surgiu. Esse vinha mais rápido e mais baixo. O medo voltou. O quarto vinha mais rápido, mais baixo e mais ameaçador que os anteriores. Com as mão à cabeça, viu a nave disparar duas vezes. Tumtum. Dois riscos de fogo atingiram a casa. Ele correu para avisar as pessoas debaixo daquele fogo sem razão. Escondido no quintal da casa, observava um após outro atirando e sobrevoando. João Carlos, curioso, ficou no quarto olhando o ataque. Ele o chamou, gritou, advertiu, mas João queria ver os tiros. Mais um tumtum, bem no quarto do amigo. Não morreu nem se queimou, ficou apenas desidratado, fraco. Cada nave, um vôo, a cada vôo dois tiros iam destruindo a casa. Ele só esperava. Aos poucos as paredes iam cedendo, os tetos caindo, o abrigo ruindo, ele se expondo e o medo aumentando.

Sentia uma nudez de morte quando viu a casa em ruínas e as tais naves que já não estavam mais tão velozes, sobrevoando em círculos o céu da sua cabeça. Entregou-se ao pavor. Um deles pousou. Ele foi falar. Perguntou chorando o porquê daquilo tudo. O piloto não era deste planeta, apesar da aparência familiar. Tinha cabelos lisos longos loiros, olhos verdes e rosto redondo. Não tinha barba nem nada que indicasse que era macho, a não ser a voz. Ele tinha certeza que não era terráqueo, talvez por causa das naves. O piloto respondeu que eles estavam aqui para destruir a Terra, com um sorriso no rosto como de quem anuncia que vai construir uma casa nova. Ele estava desesperado e perguntava por que. Respondiam-lhe que os malditos terráqueos tinham feito o mesmo com o planeta deles, sem razão. Estranhamente não perdia o ar feliz, estranho e andrógeno do rosto.

Mas não sabíamos nem que havia vida inteligente fora daqui, como destruímos seu planeta? Antes de terminar de falar, ele foi iluminado com a luz de quem está condenado e entendeu que os malditos terráqueos destruíram aquele planeta não no presente, mas no futuro. Na verdade , ainda íamos destruir. Essa coisa de viagem espacial mexe com tempo. Relatividade de Einstein. Deve ter sido isso. Chegaram num tempo aqui que ainda era passado para nós. Podiam se vingar antes de termos cometido o ato.

Ele não questionou. Se vamos destruir o planeta deles, nada mais justo. Nem estamos mostrando muito apego ao nosso mesmo, pensou enquanto andava de cabeça baixa para longe do Et. Achava que ia morrer. Já não ligava, mas mesmo conformado, sentiu seu coração bater ainda mais forte quando ouviu o barulho do clique da arma que o piloto preparava para matá-lo. Não virou as costas. Fechou os olhos com uma força que espremeu as lágrimas que ainda não tinham caído. Pensou na sua namorada, mãe, amigos... Foi atingido por um raio lazer que o transformou em cinzas.