19 junho 2008

DNA

26 de dezembro de 2008 Pedro acordou mais tarde que os outros 364 dias. O Natal não era tão sagrado pra ele desde que seu pai morrera atropelado 5 anos antes, na noite da ceia, ao sair de casa para comprar mais refrigerante. Não deixou de ir às festas por causa disso, mas o motivo agora era outro.

Toda véspera era igual. Bebia até não se lembrar de nada e acordava sempre no dia 26, tarde e cansado. O pai era tudo que ele tinha. Não falava com o irmão desde que o pegou na cama com sua ex-mulher. Sua mãe perdeu quando ainda era criança. Dela não se lembrava muito, a não ser quando as dores no peito o levavam ao hospital. Doença cardíaca genética herdada de Dona Drica, vítima de um ataque cardíaco fulminante.

Abriu os olhos, mas ainda tinha sono e a mania de sempre olhar para o relógio de cabeceira toda vez que despertava, mesmo mesmo quando ia só se reacomodar na cama. 11:13. Tá cedo, pensou, deitou, fechou os olhos e tentou se lembrar do que tinha acontecido das 20:00 do dia 24 até aquele momento, mas não via nada além de flashes. Não sabia distinguir sonhos da realidade. Naquele natal tinha se superado, nunca bebeu tanto. Os flashes continuavam vindo. Lembrou de ter estado na casa de Davi, amigo de infância. Lembrou de uísque, gim, cerveja, cachaça, vodka, meio dormindo, meio acordado, relacionou com um alfabeto, tinha bebido todas as letras. Sorriu e parou porque doeu a cabeça, se arrependeu. Os flashes agora eram involuntários. Davi. Tudo começou com uísque: João Andante, relacionou de novo, e pensou: agora você não me pega, não vou rir, dirigindo-se a sua própria pessoa. Depois gim, depois carro, casa de quem? Não lembro. Tinha uma bebidinha. Percebeu sua boca inchada. Preocupado levantou e foi até o banheiro. Não era só a boca, o olho tava roxo. Não tinha bebido demais dessa vez, é que a dor de cabeça da ressaca se somou à da surra que tinha levado sem saber o porquê. De quem será que eu apanhei? Pior, porque eu levei tabefe no dia do Natal? Presente de merda, falou com careta de dor. Ah, a bebidinha. Nos flashes estava bebendo de uma garrafinha pequena revestida com um couro de animal. No terceiro gole caiu no chão junto com a garrafa. Soco no olho. Deitado, anestesiado pela bebida, sorriu para o agressor, e deu outro gole. O cara o levantou pelo colarinho e deu mais uns tapas, tomou a garrafa e ficou lá falando algo enquanto me levavam embora. Bebi a cachaça do pai de Isabela. Nem conhecia o velho. Sacanagem. Sorriu mesmo com dor, de frente para o espelho. Voltou pra cama. 18 chamadas não atendidas. Davi. Ligou:

- Acordei todo fodido aqui, o que foi que eu fiz?

- Você não lembra de nada?

- De porra nenhuma. Aliás, lembro de uns flashes só, mas eu não sei se foi sonho ou verdade. Acho que lembro de ter tomado uma cachaça, e apanhei por isso.

- Era do pai de Isabela

- Caralho! O loucão? Bate forte o cara.

- É, o loucão. Tu foi pegar a garrafa do cara... Só lembro dele falando num-sei-quê-do-egito, faraó fulano de tal, e você sangrando, estirando o dedo pra ele enquanto eu te carregava. Dois loucos na noite do Natal. Eu não ia bater no velho. Era o pai de Isa, né? E você tava na casa dele, e tomou a cana dele. Sei lá que loucura ele tinha com aquilo

- O pior que não tá doendo muito não. Vai doer mais depois, eu acho.

- Mais tarde passo aí.

- Vou voltar a dormir. Me acorde quando chegar.

Pedro deitou e logo cochilou. Não dormiu profundamente. Acordou. Virou e olhou o reloginho. 6:30 da manhã. Dormi isso tudo? Davi não veio. Pegou o celular. Tava desligado. Tentou ligar. Sem bateria. Foi carregar. Favor ajustar a hora e a data dizia no aparelho. Pegou o reloginho. Hora: 6:32. Data 29 de dezembro de 2008. Tá errado. Foi na cozinha ver no microondas. A hora confere. Microondas não tem data. Ligou o computador. 29 de dezembro de 2008. Puta que pariu! Dormi 3 dias direto? Que merda! Foi a cachaça do louco. Por isso que é louco, fica bebendo essas coisas. E essa porrada que eu levei, não melhorou nada.


Mensagem Offline.


David diz: Fui aí naquele dia e você não tava em casa. Celular não atendeu. Dê um sinal aí. Reveillon vamo pra Graçandu.


Ligou.


- Alô. Como assim eu não tava em casa? Eu dormi direto daquela hora e até agora.

- Eu também estava dormindo até agora. Até você me acordar. São 6:40 da manhã.


- Tô preocupado. Conte essa história direito. Como eu não tava em casa se eu fiquei dormindo?

- Você não tava, eu entrei, fui no seu quarto, a cama tava vazia. Você andou bebendo de novo?

-Não, porra! Eu tô falando! Eu dormi e acordei agora. 3 dias depois, e o pior que nem descansei. Ainda to meio com sono. Que porra tinha naquela bebida? Ainda bem que o velho me bateu e eu parei de tomar. Por isso que ele ficou louco, tem alguma coisa naquela merda.

- Me deixe dormir. Quando eu acordar eu te ligo. Falou.

- Tá. Vou no hospital ver minha cabeça. Por dentro e por fora.



Aguarde ali, senhor. A recepcionista que disse. 40 minutos depois Pedro foi atendido.

- Você sofreu uma agressão?

- Sim.

- Há quantas horas?

- 3 dias.


- 3 dias? Hum... você é diabético? A cicatrização tá bem ruim.


- Pois é, por isso que eu vim aqui. Nesse ritmo não vai cicatrizar nunca. Tem outro problema também. Eu dormi direto 3 dias. Acho que foi alguma coisa que eu bebi, mas achei bom vir ver.

- Bom, pra o machucado eu vou fazer uns curativos e passar medicação. Pra esse assunto do sono, eu vou te encaminhar a um psiquiatra. Aliás, se Dr. Lucas estiver disponível, você já pode ir agora. Vou dar uma ligada. Lucas, tá podendo atender um paciente agora? Ok. To mandando. O consultório dele é o último desse corredor. Tem o nome na porta.

  • - Brigado.



  • - Dr. Lucas?

    - Sim. O que há de novo?

    - Nada demais, aliás, demais só a bebida. Bebi muito nesse natal. Dormi 3 dias direto. Achei melhor vir ver o que era.

    Dr.Lucas tirou uma lanterninha do bolso do jaleco e apontou para olhos do seu paciente enquanto olhava por cima dos seus óculos.

    - Acompanhe meu dedo.

    Para um lado, para o outro, para cima, para baixo.

    - É, os reflexos estão Ok. Pode ser estafa. Você já ouviu falar em catalepsia?

    Pedro disse que não, mas sabia do que ele tava falando. Lembrou que enterraram o primo do amigo do seu colega achando que ele tava morto, mas na verdade tinha catalepsia. Quando abriram o caixão, o homem estava virado com a mão na boca. Pelo menos foi o que contaram a ele.


    - Doutor, obrigado mas eu tenho que ir. Ligo pra marcar os exames.

    Continuava com sono. Sentou na parada do ônibus e cochilou. Acordou embaixo de uma árvore. Que merda está acontecendo comigo? Vou voltar para o hospital. Vou me internar. Estou louco, pensou. Andou desorientado, não sabia onde estava. Parecia estar em outra cidade. Se eu perguntar em que cidade estou, vão me internar. Perguntar o nome da rua, não tem problema.


    - Amigo, por favor.

    Abordou um jovem, de terno e gravata. Olhou em volta e viu que todos os homens usavam terno, e as mulheres vestido. Sentiu-se nu de calça jeans. Percebeu que todos olhavam para ele.

    - Qual o nome dessa rua, por favor?


    • Essa é a Av. Hermes da Fonseca. Para onde o senhor deseja ir?

    • Hermes da Fonseca? Obrigado.

    Hermes da fonseca é a rua do Hospital. Andou para um lado e para outro. Não encontrou Hospital nenhum.

    -Moça, licença. Como eu faço para chegar no Hospital Gurgel?

    • Hospital Gurgel eu não conheço.

    • Não conhece? Hum... desculpa, eu estou meio desorientado, é que eu viajo muito. A gente está em Natal, né?

    Falou sem jeito.

    • Sim, Natal.

    Respondeu simpática. E aproveitando a simpatia replicou. E que dia é hoje mesmo?

    • 14.

    • De quê?

    -14 de maio de 1956.

    Falou a data completa, brincando. Pedro corria. O que esta acontecendo comigo? Seus olhos encheram de lágrimas. Achou um armazém. Achou um jornal. A republica. Pegou. 14 de maio de 1956.

    • Ou eu estou louco ou voltei no tempo.

    Era tudo tão diferente da sua cidade, mas os morros eram os mesmos, só a vegetação que mudava, saiu andando sem rumo. Começou a ver semelhanças. Caralho, voltei no tempo. Não, eu estou sonhando. Eu cochilei na parada. Eu lembro. Preciso acordar.

    Com os dedos polegares e indicadores forçava as pálpebras como se estivesse querendo abrir os olhos. Tentou uma, duas, três vezes. Na quarta fazia gritando. Todas as pessoas olhavam para ele, com uma roupa completamente diferente, no meio da rua abrindo os olhos e gritando. Dois homens de azul chegaram ao seu lado, à cavalo. Ele parou. Os homens desceram. Era a polícia. Foi preso.

    3 horas depois, na cela, duvidou que ainda estivesse dormindo. Por mais louca que fosse a idéia, tinha realmente voltado no tempo. Como faço isso? Tentou se concentrar, sem sucesso. Tentou mais vezes. Passou o resto do dia tentando. A noite, cansado, deitou-se. Foi tentar mais uma vez. Concentrou, fechou os olhos e adormeceu.

    Acordou com um dois feixes de luz e um som de buzina se aproximando. Era um carro, no susto se levantou. O carro freou em cima dele. Estava no meio da rua, mas isso não o impressionava. Pelo menos não mais que o fato de ter dormido na cadeia e acordado ali. O som do motorista o chingando parecia estar num volume mais baixo que o do seu pensamento. Foi andando até a calçada. Preciso achar uma cigarreira, uma banca. Ver o jornal, lá tem a data. Andou até um shopping. Jornal.


    Secretário da defesa americano diz que Brasil tem que assinar emancipação amazônica.


    Supla lidera as disputas pelo governo de SP.


    Sport de Recife bate Manchester no Japão e é campeão mundial.


    04 de abril de 2031.


    Dois mil e trinta e um. O número ecoou na sua cabeça.

    É quando eu durmo. Sempre acordo em outro lugar, quer dizer, outro tempo. Tempo e lugar são a mesma coisa ou algo do tipo, lembrou de Einstein. Preciso me manter acordado. Aliás, preciso dormir. Quer dizer, preciso ficar acordado, até saber o que fazer, preciso procurar alguém. Estou no futuro, já devem saber de alguma coisa. Caminhou pela rua. Reconhecia o cenário. O Futuro é mais parecido com o presente do que o passado. Mas que presente? Presente de merda aquele do natal, relacionou. Quando lembrou do natal, lembrou do pai. Se ele não tivesse morrido, eu não estaria bebendo naquele dia e nada disso teria acontecido. Idiota, eu posso viajar no tempo! Falou consigo mesmo. Só preciso de um pouco de sorte para acordar numa data que eu já exista e que seja antes do acidente do meu pai. Aí é só avisar a mim mesmo sobre o que vai acontecer, que eu não deixo meu pai sair pra comprar refrigerantes e nada disso que vai acontecer. Mas eu vou acreditar em mim? E se nada disso acontecer, um novo futuro vai existir. E se um novo futuro vai existir como eu poderia voltar ao passado e me contar isso? Eu não tenho nada a perder. Preciso é dormir. Farmácia. Calmante. Drogaria Deus Ama. Eles não vão me vender um calmante forte. Pet Shop. É só dizer que vou viajar e preciso sedar meu cachorro, não tem erro. Pet Shop Amigo Bicho. Amigo bicha, relacionou. Conseguiu o calmante e o aplicador. 1 ml por kilo do animal. Animal é a mãe. 75 ml pra dormir rapidinho. Hotel 5 estrelas. Não vou acordar lá mesmo. Suíte presidencial, por favor. Room service, por favor. Champanhe, por... não, esquece a champanhe. Nunca mais eu bebo.

    Preparou o kit de sedação. Tirou a seringa do plastico, colocou os 75 ml. Colocou a droga no bolso, respirou fundo e aplicou, tudo apagou. Acordou. 16 de julho de 1999. Uhu! Só preciso me achar. 99...99... o que eu fazia? Colégio. Merda, já é noite. Só amanhã. Não posso dormir. Pior que esse sedativo ainda me deixa zonzo. Amanhã 6 e meia, na porta da minha casa, eu me encontro. Melhor na parada do ônibus, ou na frente da escola? Que merda, estou inseguro para um encontro comigo mesmo! Estarei na parada de ônibus as 6 e meia. Espero que eu não tenha faltado aula nesse dia. Depois de hoje eu vou manter um diário. E vou anotar todos os resultados da mega sena também.

    De manhã cedo, ele estava lá, esperando a si próprio, ansioso. 6:37. Atrasado. Dorminhoco. Vamo ver se você vai gostar assim de dormir daqui a 9 anos. Lá vem.

    O jovem pedro chegou de farda e se posicionou na frente do seu eu, 9 anos mais velho. Em câmera lenta, o viajante do tempo direcionou sua mão para tocar-lhe o ombro, nervoso.


    • Pedro.

    • Oi, eu te conhe...

    Antes de terminar a frase, se reconheceu. Assustado, teve um ataque cardíaco e morreu. Pedro, por sua vez, cheio de remorso também teve um infarto fulminante, igual o sua mãe. Antes de cair morto do lado de si mesmo, esboçou um pensamento sobre dona Drica que durou apenas uma fração de segundos tão pequena que não conseguiu ter uma forma.









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