20 outubro 2009

Brejo da Madre Deus, 5 de janeiro de 1963

Em frente à cama de Aristides tinha uma janela. O céu daquele fim de mundo era lindo no verão. Sem nuvens e sem postes, por vezes ele conseguia observar a forma espiralada da nossa galáxia. Dizia: “Chega, Maria, hoje tá dando pra ver o cavaco chinês no céu”. Naquela noite contou 13 estrelas cadentes até pegar no sono. Novo recorde. Perdeu a hora porque o galo não cantou naquela madrugada.

Levantou-se atordoado, vestiu a camisa verde e amarela com o número 10 nas costas e duas estrelas na frente. Fazia um frio que nunca sentira nem nos julhos de ano bissexto.
Percebeu que todas as cabras estavam concentradas numa pequena área do pasto e achou estranho. Pela fresta da porta viu o padre se aproximar e bater na sua porta 3 vezes. Não atendeu. Lembrou-se da discussão que teve com a mulher dois dias antes sobre ser ateu. A torneira começou a pingar. Desconfiado, foi lá e apertou. Ouviu um trovão. Correu para pegar a rede que tinha ficado do lado de fora. Quando deu o primeiro passo apressado a viu dobrada em cima da cadeira da sala. Estava certo que a tinha colocado para dentro no dia anterior. Pensou em perguntar a Maria, mas ela estava na feira. Choveu forte por dois minutos e o sol voltou a brilhar. As cabras continuavam em silêncio, amontoadas no mesmo lugar. O balanço que tinha construído e instalado na mangueira estava balançando sozinho. Viu o padre molhado da chuva, perto da igrejinha, ajoelhado. Ouviu outro barulho grave, mas não era trovão. Era contínuo e vinha de longe. Abriu a porta e colocou só a cabeça para fora, comprimindo os olhos para tentar ver algo no céu. O barulho aumentava de intensidade a cada segundo. O balanço parou. As cabras continuavam lá. Ele sentiu medo, mas era curioso e ficou. O som já fazia sua caneca de metal tremer na mesa. De repente viu cinco objetos prateados cortarem o ar mais ou menos à altura do teto da sua casa. Seu chapéu voou para longe. Se fosse alfabetizado leria “Esquadrilha da Fumaça”, como não era, ajoelhou-se com lágrima nos olhos, juntou uma palma da mão na outra e pediu perdão a Deus.

Um comentário:

Andréa Amaral disse...

Surrealista ou realista fantástico?
Só sei que é uma ótima revelação. Não pare nunca.