24 Fevereiro 2012
Fotofobia
20 Outubro 2009
Brejo da Madre Deus, 5 de janeiro de 1963
Levantou-se atordoado, vestiu a camisa verde e amarela com o número 10 nas costas e duas estrelas na frente. Fazia um frio que nunca sentira nem nos julhos de ano bissexto. Percebeu que todas as cabras estavam concentradas numa pequena área do pasto e achou estranho. Pela fresta da porta viu o padre se aproximar e bater na sua porta 3 vezes. Não atendeu. Lembrou-se da discussão que teve com a mulher dois dias antes sobre ser ateu. A torneira começou a pingar. Desconfiado, foi lá e apertou. Ouviu um trovão. Correu para pegar a rede que tinha ficado do lado de fora. Quando deu o primeiro passo apressado a viu dobrada em cima da cadeira da sala. Estava certo que a tinha colocado para dentro no dia anterior. Pensou em perguntar a Maria, mas ela estava na feira. Choveu forte por dois minutos e o sol voltou a brilhar. As cabras continuavam em silêncio, amontoadas no mesmo lugar. O balanço que tinha construído e instalado na mangueira estava balançando sozinho. Viu o padre molhado da chuva, perto da igrejinha, ajoelhado. Ouviu outro barulho grave, mas não era trovão. Era contínuo e vinha de longe. Abriu a porta e colocou só a cabeça para fora, comprimindo os olhos para tentar ver algo no céu. O barulho aumentava de intensidade a cada segundo. O balanço parou. As cabras continuavam lá. Ele sentiu medo, mas era curioso e ficou. O som já fazia sua caneca de metal tremer na mesa. De repente viu cinco objetos prateados cortarem o ar mais ou menos à altura do teto da sua casa. Seu chapéu voou para longe. Se fosse alfabetizado leria “Esquadrilha da Fumaça”, como não era, ajoelhou-se com lágrima nos olhos, juntou uma palma da mão na outra e pediu perdão a Deus.
06 Abril 2009
Mel amarga
O pai de Melissa era ateu. A mãe, evangélica desde que conseguiu engravidar depois que um homem de terno, gravata e um livro grosso molhado de suor passou pela sua vizinhança e botou a mão na sua cabeça. Era tão fervorosa na igreja quanto o marido no cabaré. Mel, como a chamavam, era tão influenciada por Regina quanto ressentida dos hábitos mundanos de Jõao Maria – ou Jão, como as putas e os bêbados o conheciam. O resultado foi uma construção de caráter baseado na escola domincal da radical igreja do bairro, que a ensinava a orar enquanto ouvia os quase estupros da mãe pelo pai bêbado, nos finais de mês, quando não podia arcar com as raparigas.
Mel não era de se jogar fora, mas tinha que olhar bem de perto para perceber através dos cabelos negros, longos, sem vida e sem química, do buço virgem de cera assim como as partes mais baixas que as saias jeans longas e sem graça escondiam. Como qualquer maquiagem era diabólica, seu único cosmético era sabonete e lâmina de barbear para raspar apenas as axilas, que fazia desde os 13 anos. Abominava homens. Só pensava em sexo quando o amaldiçoava. Nunca se masturbara, no máximo acordara com a calcinha molhada e com uma culpa que ensopava também seus olhos. Chegava ao ponto de passar horas no ponto esperando um ônibus mais vago para evitar os atritos maliciosos, que lhe arrepiavam a nuca de nojo.
No dia 13 de julho ia do culto para casa. Chovia torrencialmente. Como sua bíblia tinha uma capinha com zíper de um material impermeável, corria com ela em cima da cabeça em direção à parada. A 10 metros olhou para trás. Seu ônibus. Lotado, assim como o abrigo para esperá-lo. Decidiu então entrar. Murmurava uma oração já nos degraus. Subiu com a roupa molhada e passou pela roleta. Ombros tensos. Livro contra o peito. Uma estudante se ofereceu para carregar, ela relutou em deixar, mas tinha que ter um apoio mais fácil, já que a cada freada uma massa humana de trabalhadores cansados se reorganizava sempre buscando a acomodação de seus membros nos estreitos vales dos glúteos das incautas.
Até a data, com 19 anos, Melissa tinha conseguido evitar tais saliências preferindo inclusive andar na chuva para casa a subir num coletivo amontoado. Talvez naquele dia estivesse cansada, ou o culto lhe tenha dado a confiança de que nenhum desprazer lhe acometeria. Sua sorte foi que logo depois da roleta, havia uma concentração de mulheres, que provavelmente também decidiram não se expor ao atrito da passagem até o fundo do carro.
No ponto do shopping sobe e desce muita gente. É a minha chance de arrumar um lugar para sentar, pensou entre um versículo memorizado e outro. O que ela não contava é que a chuva faz com que as pessoas prefiram os primeiros coletivos que passam em detrimento dos que param mais perto dos seus destinos, principalmente os que já estão se molhando devido ao excesso de contingente da parada. Desceram 6 e subiram 13. O lugar vago, foi ocupado mais rápido por uma mulher com e o filho pequeno. Mel amargou continuar de pé. Naquela leva subiu Roberto, que vinha do cinema. Ela o achou bonito. Ele se posicionou do lado dela, até que no ponto seguinte, Leilane - uma gorda vendedora de cachorro-quente subiu. Do lado esquerdo de Beto estava a menina evangélica e depois dela uma concentração impenetrável de pessoas buscando a aproximação da porta de saída. Do lado direito estava a roleta. Leilane e seus 116 quilos bem distribuídos nos seus 154 centímetros de comprimento criou um novo espaço entre Beto e o trocador. O jovem perdeu o apoio e foi tangido para as costas de Melissa, seguro apenas pela coesão da massa de trabalhadores. Mel não gostou, mas pelo menos era um rapaz bonito e não teve culpa. Ele não estava preocupado em sarrar na garota, mas em manter-se de pé. Mel sentia, mesmo flácido, a sobressaliência da calça do rapaz. Incomodou-se pouco. Sabia que estava procurando uma saída da situação, mas acabou não vendo esperança quando mais duas pessoas subiram. Agora ela estava incomodada. Fechou os olhos e mentalizou uma oração mais fervorosa. Algo que interpretou como agonia tomou conta do seu quadril e ventre. Cerrou os olhos com mais força. Agora chegava a sussurrar um salmo. Uma freada mais brusca a fez sentir um passamento e ficou fora de si por alguns segundos. Com a movimentação, Roberto finalmente achou um espaço. Ela interpretou a freada como uma providência divina e o passamento como uma descarga espiritual. Com a roupa molhada da chuva, não percebeu, já em casa, uma nova textura de umidez na sua roupa íntima. Tinha puxado ao pai, afinal.
10 Dezembro 2008
Quarta-Feira
Se não foi amor aquele suspiro, aquele silêncio todo, não o conheço então. O meu tem a força de 12 exércitos. Pior, a força da resistência à 12 exércitos.
Na quinta marcha o vento na cara é mais forte, é só dizer ao piloto que quer com emoção.
Só não se negocia o amor. O resto sim.
24 Novembro 2008
Feliz Aniversário
Era aniversário de Júlia. Meia noite e quatro bia liga para ser a primeira. Melhor amiga. Outros ligaram, outros mais hipócritas só deixaram recado no orkut e uns menos enviaram mensagem pelo celular. Poucos perguntaram o que ela ia fazer no dia e nenhum propôs nada. Decidiu sair só. Estava puta. É engraçado dizer que estava puta. Era uma da tarde. Vestiu o biquíni e foi à praia sozinha, afinal se bastava. Deitou na canga com a barriga firme e besuntada de protetor solar 15 com efeito bronzeante para cima, fone de ouvido na orelha tocando Marisa Monte e óculos escuros. As pernas estavam levemente separadas e tinham um resquício da marca do outro e maior biquíni.
Entre “bem-que-quis” e “pra ser sincero” formou-se uma pelada 3x3, com traves de coco por meninos de pernas brancas do mesmo prédio. Ela só percebeu quando a bola caiu perto e o chão tremeu. Levantou os óculos e colocou a mão em cima da sobrancelha como que dizendo que porra é isso. Também não saio daqui, pensou. Cheguei primeiro. Aumentou o volume. Uma dividida de bola lançou 58 grãos de areia no seu dedão esquerdo do pé. Puta que pariu. Tirou os óculos quase quebrando as pernas, colocou a cara de feia de não saio daqui nem fodendo, flexionou um pouco as pernas e apoiou os cotovelos no canto da canga e ficou observando com cara de poucos amigos os meninos jogando bola. Jeferson era o gordo que não gostava de futebol e ficava ali perto do gol pra não ficar sobrando. 17 anos e espinha no rosto. O ângulo dos joelhos de Júlia comprimiam sua vulva no pequeno biquíni de uma maneira que gerava um volume levemente repartido ao meio devido à depilação minuciosa que fizera para o caso de se dar bem no dia do aniversário. Só notou Jeferson olhando quando os meninos gritaram com ele por causa do gol não evitado por falta de atenção. O impulso inicial foi de ficar mais puta e acabar a festa, mas o seu ódio pelo mundo e a coincidência do seu aniversário ter caído exatamente 14 dias depois que menstruou a fizeram preferir provocar o gordinho. Abriu um pouco mais as pernas e ajeitou a parte de cima do biquíni. Jeferson tentava disfarçar falando com os colegas de time enquanto observava. Júlia decidiu passar protetor solar na parte interna da coxa. Virou-se de bruços, quase de quatro para pegar algo na bolsa. O biquíni não era fio dental, mas nessa hora ficou um pouco. Quando retornou, viu o menino de tetas grandes dar uma coçadinha no pau. Pronto, era hora de ir. Ela deu tchauzinho de longe. Mais um gol aconteceu.
À tarde, mais ligações e o mesmo número de propostas. Sair sozinha de novo à noite era a saída. Tinha provado que se bastava. Onze horas no bar, muitos conhecidos, alguns paqueras, mas nenhum parabéns. Antes da banda começar rolava um som. Uma gostosa tipo cachorra funkeira dançava exageradamente com um short branco curto envolvendo um rabo. Lembrou da frase de Marco, seu amigo: “calça branca dá tesão até no varal”. Deu em Matheus: menino de cabelo partido de lado e ombros estreitos que a secava descaradamente. Júlia foi ao bar. Caipirinha. Uma, duas, três. Meia noite e meia passa perto da escada que a cachorra subia rebolando-se e o tal do Matheus ainda, de baixo, como que gravando a imagem para a punheta que bateria em casa, secando. Lembrou-se do gordinho da praia. Ébria, chegou para Matheus e perguntou ao seu pé-do-ouvido
E eu? Sou gostosa também?
O menino, vermelho, fez que sim. Ela saiu de perto, queria só provocar.
Andou pelo bar e por meia hora. Por onde ia, Matheus a espreitava sem coragem de abordar. Ela sorriu com o canto da boca e foi lá.
Qual é o seu nome?
Matheus e o seu?
Roberta. Você é virgem, Matheus?
Não
Claro que é.
Você não vai me comer mas eu tenho uma proposta:
Uma lágrima estava prestes a cair pelos olhos do menino.
Eu te mostro minha boceta, mas você não vai poder me tocar e vai ter que fazer uma coisinha pra mim. Topa?
Sim.
Seu pau está duro?
Não respondeu. Ela chegou perto e tocou a calça. Estava.
O que eu tenho que fazer?.
Você topa ou não?
Topo
Foram ao banheiro masculino, numa cabine. Ele estava parado.
Baixa as calças. Ela mandou.
Cueca Zorba.
Me dá o seu dedo, Júlia falou. Ele deu o indicador. Ela pegou a mão dele, sacou o médio e colocou na boca. Chupou muito. Ele estava com o pau duro e cabeça vermelha, mas tinha vergonha de se masturbar.
Você não vai me mostrar? O menino tinha a voz trêmula.
Calma, você ainda não fez o que eu pedi. Enfia o dedo no cu.
To falando sério. Quer ver ou não quer?
Ele colocou a mão atrás de si.
Não vale roubar. Deixa eu ver. Ela colocou ele de costas com um pé no vaso para vê-lo se penetrando. O menino se tremia de alguma coisa: ódio, medo ou vergonha.
Enfia tudo
Feito. Júlia colocou-se do lado dele e levantou o vestido. E baixou a calcinha até o joelho também. Matheus estava imóvel com o dedo no cu.
Você pode bater uma se quiser, só não pode me tocar.
Ele não fez nada, só olhava com o ânus entupido e o cacete ereto.
- Ela começou a brincar com sua boceta. Exibia-se pra ele. A brincadeira evoluiu e ela sim começou a tocar uma. Gemia alto para provocá-lo, mas nem sentia tanto prazer assim. Ele timidamente tocou seu pau. Júlia virou pra ver se o dedo do menino estava onde ela tinha mandado. Estava. Ela abria sua vulva para Matheus ver. O fez por 30 segundos até o coitado gozar. Espirrou um pouco na palma da mão dela que devolveu com um sonoro tapa na cara. O rosto de Matheus ficou vermelho da pancada e molhado do seu próprio esperma. Ela enxugou o que faltava na camisa dele e foi embora. Ele sentou no vaso e chorou. Ela foi pra casa vingada.
17 Novembro 2008
Retorne ao começo
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14 Novembro 2008
Bobo como eu
Uma prancha de surf
Fazer uma viagem para o sul.
Queria ter uma cama de casal
Um quarto só pra mim
Achar tudo normal
Queria ter férias em fevereiro
Experimentar carnaval
Fazer coisas que não me dão dinheiro
Queria ser mais belo
Não precisar me esforçar tanto
Pra criar um elo
Queria ser mais inteligente
Me apegar mais aos bichos
Menos à gente
Queria sair daqui
Morar fora
Para quando a coisa apertar ter pra onde ir
Queria ter alguém
Que quisesse estar comigo
pelos mesmos motivos que eu
Que me ame como amigo
E não queira ter mais ninguém
11 Novembro 2008
Do tamanho de um punho cerrado
O coração é um músculo, pouco inteligente por sinal, que bombeia sangue. Não o faz de maneira racional. Não controla a irrigação, nem a intensidade dos batimentos, nem tem a iniciativa de se exercitar para evitar doenças do seu hospedeiro. Quem faz tudo isso é o cérebro. O coração, se você cortar alguém, serrar as costelas e colocá-lo para fora, de tão burro ainda continua batendo. Se jogá-lo no chão, continua batendo em meio à poça de sangue e gordura, num ritmo quase alegre. Se bem que, se o coração tem suas deficiências e é controlado pelo cérebro, este deve ser um tanto burro também - ou incompetente para gerir todos os órgãos do corpo de maneira 100% satisfatória. Tem que cuidar dos olhos, trompas de eustáquio, duodeno, rins, fígado, faringe, perna. Tudo bem, é órgão pra cacete e ele só tenta ser justo dando a mesma atenção para cada um deles, mas o coração é especial. É burro e importante, como um filho retardado a quem é dada toda a assistência. O cérebro não tem tato para isso. É um burocrático que não trabalha com as exceções.
10 Novembro 2008
Última Instância
Se você não fizer o que eu quero eu te bato.
Te dou o que você quer, se você dormir comigo.